"NE PAS RIRE, NE PAS PLEURER, MAIS COMPRENDRE" SPINOZA

..."Here comes the sun smiling... How long have you been blue? There'd ever be a time for us to recapture all the time we lose... Cause it's plain to see, a storm is not the weather and i'm telling you girl : You'll look at them and smile "...

mercredi 14 septembre 2011

Lambadas da vida...

Os cabelos estavam pintados de um vermelho forte, ousado, quase roxo e raspados na metade da cabeça para permitir a sequência de dezenas de pontos de sutura... o sangue escuro, endurecido, ainda manchava a pele morena da adolescente...



Deitada na cama da enfermaria dividida com outras cinco pacientes, Juliana tinha os olhos inchados deformando o semblante e hematomas que maculavam o rosto delicado... de menina faceira...
Piercing no supercílio, olhos esverdeados que lhe renderam o apelido de "galega" entre os parentes... eram  resquícios que davam uma vaga ideia da beleza da menina vaidosa...
Ela se virava na cama, na tentativa de evitar contato entre o travesseiro e os ferimentos e ao mesmo tempo, contar o que havia acontecido...
Mas as palavras eram confusas... a memória traiçoeira... os sedativos para evitar a dor, muito fortes... e a menina / moça se lembrava apenas que o encontro marcado com o rapaz atraente no sábado à noite terminara mal, muito mal... exatamente em uma cama de hospital, em Goiânia...
Os relatos no posto policial do hospital de urgências davam conta de que a moça fora encontrada inconsciente à beira de uma rodovia, numa cidade vizinha...  abandonada à própria sorte...
E sorte mesmo foi ter sido encontrada por um policial que prestou socorro...
O encontro às cegas que se transformou em crime, foi combinado em um chat de bate papo da internet... Mas o convite para jantar era apenas o pano de fundo para o abuso sexual e a tentativa de homicídio...
A família humilde, simples e pobre procurou a imprensa, afim de denunciar e tornar pública a agressão covarde que, de acordo com uma testemunha teria sido praticada por 3 homens... Chutes, pontapés, enforcamento, pauladas na cabeça e um atropelamento... 3 homens e nenhuma chance de defesa da menina/ moça de 18 anos...
Parentes e amigos não sentiam confiança no trabalho de investigação policial que, ao que tudo indicava, poderia não dar em nada...afinal, quem se importava com uma adolescente pobre, desajustada, que marcava encontros pela internet com o primeiro que via na frente???
Dias depois, assim que recebeu alta, procuramos Juliana na casa de parentes...
Na casa pobre, de chão batido, eu, meu colega cinegrafista e o delegado que investiga o caso fomos recebidos pela avó materna...
Aguardávamos pela conversa com Juliana, agora mais lúcida, em busca de detalhes que pudessem ajudar na investigação... E enquanto isso, dona Irene revelava um pouquinho da vida sofrida de mãe de 7 filhos, dezenas de netos e alguns bisnetos : há dois meses, ela havia perdido uma filha assassinada por envolvimento com traficantes... com a avó ficou uma adolescente de 14 anos que,  agora abandonava os estudos e se entregava à prostituição...
A mãe de Juliana estava presa, também por tráfico... outra filha se recuperava de um atropelamento e nesta semana, o espancamento covarde de Juliana...
Dona Irene preparou um café cheiroso...serviu com toda pompa nas melhores xícaras do casebre humilde... e desfiou longos minutos de relatos das dificuldades na vida dura de cuidar de filhos e netos...Convencê-los a trilhar o caminho de trabalho e estudos e escapar da triste sina de servir ao tráfico, se envolver em crimes ou ser vítimas deles...
"Não dá... eles não me escutam... não me respeitam... só fazem o que querem"...lamentou com olhar pesado... "Só pedindo a Deus..."
Foi uma tarde mergulhada na dura realidade da família... e a partir dai, muito fácil entender como Juliana se tornou presa fácil de uma sala de bate papo...
Por ali, não faltava apenas dinheiro... sobrava carência de exemplo, referencial, limites e amor próprio...
Fomos embora... Juliana acendia um cigarro... ela que tão nova já era mãe, contava que não via o filho há uma semana... mas pensava que seria ruim se ele a visse tão machucada...
A prima de 14 anos se preparava para mais um encontro em bailes funk do bairro...
E dona Irene, ah, Dona Irene... só restava a ela o bom companheiro terço nas mãos , pra pedir a Deus um pouco de consolo... porque a surra que levou Juliana não parecia nada diante das lambadas da vida que essa senhora de sessenta e poucos anos tomava a cada dia...

3 commentaires:

Vinícius Rocha a dit…

Nossa, que pesadelo vive essa avó no final da vida! mundinho cão mesmo!...

Mônica Novaes a dit…

é, Vini... são tantas histórias tristes que nos comovem, dia-a-dia, nessa profissão... não quero perder nunca a capacidade de me indignar com elas...

DO a dit…

Oi,MONICA.

DEZ ANOS DE BLOG e vim te convidar para a festinha por lá,pois vc faz parte da história do RAMSES.

Beijos!